02/05/2014
Entrevista: presidente Léo Almada esclarece situação da sede


Na presidência do America desde janeiro, Léo Almada tem se mostrado incansável para resolver os problemas históricos enfrentados pelo clube, que está prestes a completar 110 anos. Nessa entrevista para o Site Oficial, o dirigente de 76 anos aborda algumas das principais dificuldades encaradas pelo Conselho de Administração para garantir a sobrevivência da instituição, mergulhada em grave crise financeira, e explica as soluções que defende para que o America recupere o papel de protagonista do esporte nacional a médio prazo.
Presidente, levantamentos recentes mostram que o America tem uma dívida de R$ 60 milhões, e ela seria a razão principal para a construção de uma nova sede. Como se chegou a esse número?

Há um mês o America foi um dos únicos cinco clubes convidados para discutir no Congresso Nacional, em Brasília-DF, o Proforte, um programa que pretende renegociar as dívidas das agremiações esportivas. Então, fizemos um levantamento e concluímos que nossos débitos fiscais federais estavam na casa dos R$ 13 milhões. A partir de então, fizemos um levantamento maior, para analisar todo o montante, e há muitas dívidas. Contas não pagas, débitos trabalhistas, há débitos de todas as naturezas imagináveis que totalizam esses R$ 60 milhões, em números apurados pelo nosso Conselho de Administração. É um valor impagável hoje. O clube, seus associados, torcedores e beneméritos não tem como quitar esse valor, que se torna maior a cada mês e torna a administração de nossa sede insustentável.
E qual solução você enxerga para esse cenário?

Primeiramente, eu quero destacar que não queremos vender nenhum milímetro do patrimônio do America. Nós temos uma sede, um centro de treinamentos e um estádio, que devem ser transformados em fontes de receita. Nossa sede hoje é absolutamente deficitária e está em péssimas condições. Seria preciso uma soma em dinheiro muito elevada para coloca-la em condições adequadas, e não temos também de onde tirar esse dinheiro. Minha proposta é utilizar a sede atual para construir uma nova sede, com algum empreendimento econômico que permita ao investidor resgatar o investimento necessário para nos dar uma sede nova e moderna, quitando as nossas dívidas na totalidade e gerando uma nova fonte de receita permanente para o clube.
E como isto funcionaria?

Vamos publicar um edital explicitando todas as exigências do America e aceitaremos a proposta mais favorável ao clube. O contrato vai estipular um período que o investidor poderá utilizar a estrutura do empreendimento, uns 20, 25 anos talvez, prorrogáveis caso a proposta seja vantajosa. E, depois, essa área voltaria para o controle do America, que não perderia um milímetro de patrimônio sequer. E, entre as exigências, incluiremos a quitação total dos débitos, daremos a planta da sede nova e um valor mensal para o clube se estabelecer enquanto acontecem as obras, além de um repasse mensal após a inauguração do empreendimento, com valor mínimo fixado. Mas tudo será feito às claras, com uma comissão constituída para acompanhar o processo e defender os interesses do America. Não há nada novo nisto, é um procedimento comum no mundo todo.
Então, não se pretende vender a sede?

Não, nunca nos desfaríamos de um patrimônio tão importante e valioso. O que estamos querendo é valorizar o clube e a marca dele, buscando uma alternativa para a sobrevivência do America. Nós nunca pensamos em vender a sede. Hoje, a sede é um patrimônio loteado por grupos diversos e empresários que tiram vantagem explorando seu segmento econômico enquanto o clube paga para que eles mantenham seus negócios. Os aluguéis que o America recebe hoje dos espaços sublocados não são suficientes nem mesmo para pagar as contas. São péssimos negócios para o clube, que foi administrado de maneira amadora até aqui. Nós não podemos ficar bancando negócios para os outros, que lucram utilizando nossos espaços enquanto o America afunda em dívidas.
Esse projeto já trabalha com alguma data?

Nós vamos fechar a sede do America já no dia 1º de julho, mas isso não significa que as obras vão começar, porque ainda vamos seguir todo o ritual necessário. Vamos esclarecer os associados, torcedores, publicaremos edital e montaremos uma comissão para cuidar de todo esse processo. Enquanto a sede estiver fechada, os associados vão utilizar as instalações sociais de clubes coirmãos que têm sede próxima da nossa. Faremos convênios com esses clubes, exatamente como fizemos na época em que a atual sede foi construída. E, para a parte administrativa, alugaremos um escritório. Acredito que, após dois anos e meio de obras, já tenhamos uma sede nova. Esse foi o tempo de construção da sede atual.
Muitos associados ainda têm más lembranças da negociação do Estádio Wolney Braune, no Andaraí, que virou o atual Shopping Iguatemi. Como garantir que os erros daquela negociação não vão se repetir?

Nós seremos totalmente transparentes, mas quero reforçar que as duas situações não têm nada em comum, porque nós não vamos vender patrimônio. A comissão montada pelo America terá os profissionais mais qualificados para defender os interesses do clube, que não será lesado em nada, porque é o America quem vai fazer as exigências, publicadas em edital. Na minha gestão, o America não vai repetir os erros do passado. Estamos abrindo um livro novo, iniciando um novo ciclo.
Muitos americanos gostariam que o senhor se candidatasse novamente nas eleições de setembro, para um mandato de três anos. Assim, seria possível acompanhar de perto todo o processo. O que o senhor acha da ideia?

Eu tenho recebido esse pedido repetidamente, e fico muito orgulhoso, porque isso demonstra confiança em mim. Mas eu sou um homem de uma palavra só, e disse que meu compromisso seria de apenas um ano. Mas disse também em minha posse que meu objetivo nesse ano era recolocar o America nos trilhos e garantir a sua sobrevivência para os americanos de hoje e das próximas gerações. Então, eu não serei candidato, mas quero deixar o clube muito bem encaminhado para aquele que me suceder, e é o que estou procurando fazer.
Mas a recusa do senhor em seguir no cargo cria um ambiente de insegurança para a família americana. Aceitaria pelo menos ser presidente da comissão que conduziria esse processo de construção da nova sede?

Essa é uma proposta que muito se discute internamente. Seguir na presidência do America por mais três anos é inviável por causa de minhas outras atividades e de minha saúde, porque eu já tenho 76 anos. Sobre a presidência da comissão, eu ainda não sei responder a essa pergunta, o assunto precisa ser debatido, mas acho que é algo que eu acho que posso fazer sim, para ajudar no processo.